escrito por bruno às 15:32 de um destes dias

não têm de ser palavras
de amor as vistas no arder
mais ou menos lento das chamas.

não têm de ser palavras
de terror as vistas no arder
mais ou menos vermelho das labaredas.

só temos de ver
as palavras dentro de nós mesmos,
pois é lá que elas nascem

e mesmo soltas nos nossos lábios
é lá também que elas morrem.
 
escrito por bruno às 15:26 de um destes dias

fazes sempre essa cara quando percebes quem sou,
e eu deixo de perceber quem és quando o teu rosto
se desfaz em mil gotículas de água imprópria para consumo.
 
escrito por bruno às 15:23 de um destes dias

há uma tribo na amazónia que, no fim do dia, se senta em volta da fogueira e inventa novas palavras.
 
escrito por bruno às 15:20 de um destes dias

está sempre uma carrinha funerária à minha porta.
se ela está à espera que eu fique
às portas da morte,
está bem enganada.
eu só uso aquela porta para
sair para a minha vida.
 
escrito por bruno às 17:04 de um destes dias


(desenho de brian cronin)
 
escrito por bruno às 16:10 de um destes dias

levo mais coisas na minha bagagem
do que na minha bagagem coisas cabem.
 
escrito por bruno às 16:02 de um destes dias

o momento em que nos beijámos
é ainda hoje o papel de parede de minha casa.
 
escrito por bruno às 15:44 de um destes dias

nasci no poema, pequenino.
no poema, pequenino, eu a nascer.

existe um trovão de sol que atravessa os dias.
há uma flor que dorme de noite.

todos os poemas são essencialmente amargurados.
 
escrito por bruno às 15:38 de um destes dias

quando ficamos velhos, e começamos a esquecer coisas, esquecemos em primeiro lugar a última língua que aprendemos. a nossa língua materna é o último pedaço que perdemos de nós.
 
escrito por bruno às 13:47 de um destes dias

as minhas memórias são de pequenino. por isso pequeninas em grande.
 
escrito por bruno às 01:31 de um destes dias

existem as pessoas no café. e existes tu. longe daqui.
 
escrito por bruno às 21:39 de um destes dias

eu é que sou demasiado estúpido
e sinto-me bem ao teu lado
e ao lado da chuva.
 
escrito por bruno às 01:15 de um destes dias

traz música aos meus dias. a esta fotocópia de um texto belo e surdo. és a paginação que falta no título do meu texto. e já que falamos de livros, amo-te.
 
escrito por bruno às 00:22 de um destes dias

o telefone nunca mais tocou. existia a sépia. o telefone. e eu. esperava com o nariz bem junto ao seu bocal. ao bocal do telefone. o telefone nunca mais tocou. aos poucos, a minha posição foi-se afastando e foi-me afastando do telefone e do que eu dele esperava. de quem eu nele esperava. existia sépia. o telefone nunca mais tocou. o telefone, nunca mais, tocou.