escrito por bruno às
01:16 de um destes dias
sabes o que tens para dizer todos os dias. permaneces calma, sem exaltações ulteriores. não te esqueceste de fazer as compras na mercearia, de deitar os restos ao cão, desprender a cilha ao burro- que, ainda antes de clarear o dia de amanhã, sairá do curral para mais um árduo dia de trabalho.
escrito por bruno às
00:47 de um destes dias
a palma da mão____de repente__atrás das costas,
virados do avesso os homens e as mulheres__pela noite
para mostrarem uns aos outros e ao medo__as coisas bonitas
que existem
_para mostrar.
vão aos pigmentos da textura da cor
procurar__uma pétala de flor__onde caiba a cabeça
_entre os joelhos.
os lábios____na saída____de um impulso erguidos
_(tocar-te os lábios seria pétalas em flor)
precisos__movimentos__habitam__a__noite.
cabeças__de repende
redondas____a fazer lembrar o mundo.
e__o mundo__d_e__r_e_p_e_n_t_e___entre as mãos.__cai.
a parede é vazia
mas ergue-se_bonita.
tem pessoas__dentro.
__________sorri.
é difícil aperceber_____________________de repente
as casas a cair cíclicas sobre o alcatrão do asfalto por erigir.
mas
sorrisos__muito abertos
e o mundo__a desabrochar__do interior do círculo dos lábios
___que tocam a face.
escrito por bruno às
17:38 de um destes dias
e depois há os dias em que és silenciosa, pela manhã. fazes pequenas coisas com as mãos. o olhar sempre concentrado nos pequenos gestos. às vezes parece que o teu nariz está constipado. enquanto te deslocas em movimentos leves pelas divisões da casa. ou pela rua.
e é de manhã. e há sol. como se apenas nos chegassem resquícios dos raios de ontem, que ainda com algum sono nos batem na cara e levantam o negro que pode sobrar dos teus olhos.
escrito por bruno às
18:35 de um destes dias
observas o sangue
jorrando
do caule cortado
das flores que
te ofereci
o mar
dentro
das coisas
dentro do corpo
inquieto
ou
melancólico
mas sempre
sempre profundo
observas
a vida
escorrendo dos ramos
das árvores
ou do corpo
ou do mar
ou
do caule cortado
das flores que
te ofereci
hoje murchas,
pela força do tempo.
pequena nota: não é esta a forma. na sua totalidade. impossível.
escrito por bruno às
13:49 de um destes dias
senti necessidade de criar a palavra saudade quando vi os teus dedos desprenderem-se dos meus e os teus olhos tristes, rasos de qualquer coisa límpida, a caminhar naquele que será um longo caminho de regresso.
escrito por bruno às
16:22 de um destes dias
chegamos meio a medo. primeiro, não sabemos muito bem como, nem porquê, nem onde, nem o quê. os nossos passos são certos numa incerteza miudinha. não temos muita noção do que poderá ou não vir a acontecer. não temos noção de muitas coisas. nem sequer nos lembramos muito. nem do que sabemos, nem do que sabemos que não sabemos. limitamo-nos a estar desvanecidamente sossegados, tremulamente dentro de uma inquietação que quase não é a nossa.
escrito por bruno às
15:34 de um destes dias
dedicado a duas pessoas que hoje não se conhecem
cada fotografia nossa que por vezes encontro sem culpa nem intenção é hoje uma maldição. enormes sorrisos são o espelho de um passado impossível à memória. dentro das recordações dos momentos existem obtusas imagens a desmistificar cada um desses momentos. a desbotar. cada fotografia é hoje lembrança opaca de sorrisos que contrastam com lágrimas, que não tendo sido derramadas permanecem em nós para sempre.
escrito por bruno às
15:13 de um destes dias
à noite. a noite. a noite. à noite a noite. a noite à noite a noite. à noite a noite. a noite na noite. na noite à noite. a noite. há noite na noite à noite. à noite. encontramo-nos mais logo, para tomarmos um copo e metermos toda a conversa em dia e a saudade de parte.
escrito por bruno às
23:20 de um destes dias
nunca te magoarei, nunca. chamo-me bruno, e tu? não chores por favor, não consigo ver-te chorar. um sorriso simples, sem palavras. tens todas as palavras que as palavras não têm. lia nos teus olhos tudo aquilo que conseguia ler. mostra a tua face. nos teus olhos vejo mais do que aquilo que deixas ver. os teus gestos. o teu rosto. a tua face é o tempo do mundo. limparei todas as lágrimas que um dia poderão escorrer no teu rosto, e impedi-las-ei de avançar na tua pele. era já o cheiro dos teus cabelos, nas minhas mãos. nos meus olhos já o cheiro da tua pele, e o amor a nascer pequenino para vencer certezas grandes de mais para os dias que nos cabiam.
escrito por bruno às
16:06 de um destes dias
um amor escondido,
que nem todos
conseguirão ver.
(às vezes é claro
outras vazio.)
escrito por bruno às
21:15 de um destes dias
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era uma vez um homem que viajou até à índia só para escrever uma estória. não sabia o que escrever e tinha de ver para sentir. viu mulheres com mantos pelas costas. e homens de pele castanha. e vacas brancas. viu ruas a pique. palácios de cores. reflexos a preto e branco em lagos de calmas águas. viu homens totalmente vestidos de branco. e mulheres totalmente nuas na penumbra. viu sandálias por calçar, em pés feridos. bicicletas com várias rodas. e tendas com poucos paus. letras vermelhas em paredes brancas. formas escultóricas em paredes de monumentais empreendimentos de pedra banhadas a ouro. barbas grandes e por fazer. portas pequenas. selos. marcos do correio e budas em miniatura. inúmeras vestes. cores alegres em rostos tristes. turbantes. feições perturbantes. tendas desfeitas. pedras. pedras e cal. tapetes que voam: no vento. e o homem não conseguiu escrever nada sobre o que viu. a memória nunca sobreposta por palavras. no interior dos seus olhos existem fotografias suspensas. a memória continua a ser a memória, o que existiu. há tantas estórias a cair da mão suspensa que segura a cabeça do homem que viajou até à índia para não escrever nenhuma estória.
(fotografia da autoria de luís tobias, microconto baseado na obra fotográfica índia)
escrito por bruno às
22:17 de um destes dias
escrito por bruno às
22:13 de um destes dias
vivo na sombra dos dias
que habita a parede branca
do meu quarto
e faz ouvir ao perto
a tão longínqua e
pesada melodia comprimida no único lugar
onde ainda habito.
escrito por bruno às
21:23 de um destes dias
nasci no mundo
quando o poema morreu
para mim.
- a música de um piano
é triste.
esta mesa tão grande
- tão grande e tão vazia e tão vasta.
esta cadeira morta,
onde pouso meu peito.
esta mesa onde escrevo,
onde pouso meu papel.
esta música de choro
estas cartas perdidas.
esta tinta- toda esta tinta-
do nunca arrependimento
estas pautas musicais,
uma réstea de música.
uma rua na baixa.
ou um papel em minha casa.
escrito por bruno às
23:49 de um destes dias
fazemos puzzles para um dia. quando for muito tarde para alguma coisa. agora é ainda muito cedo. (todas as palavras encaixadas esquecidas. todos os textos para lembrar os dias em que era cedo de mais para lembrar e tarde para esquecer.)
escrito por bruno às
23:48 de um destes dias
seguias a passos largos o teu caminho. o teu caminho era não sei para onde. seguias a passos atarefados de pressa o teu caminho de destinos longínquos. quando chegaste ao fim paraste e, não dando muito tempo a ti próprio para pensar, voltaste para trás, no sentido inverso ao que primeiro havias tomado.
escrito por bruno às
23:45 de um destes dias
todos os dias escrevi o meu último poema. de cada vez que princípio um novo poema, de cada vez que acabo um poema já gasto, escrevo o último poema da minha vida.
escrito por bruno às
23:28 de um destes dias
troca-me na hora
em que antes
de por ti
os goles suarem
serás orvalho
na manhãescura.
escrito por bruno às
23:05 de um destes dias
Quando eu escrevo Beijinhos, no final de cada mensagem, apenas quero que me beijes. Mostro que te quero e esqueço que não me podes beijar. Eu só quero os teus lábios.
Reinvento cada palavra amor e sacrifico as frases cosidas na manta de retalhos do tempo amoroso perdido.
escrito por bruno às
00:48 de um destes dias
olha as tantas páginas que te escrevi um dia com o pescoço curvado. é sempre a mesma temática quando eu pressiono a tecla do fim. podia muito bem estar mais perto de ser algo ou uma montanha perto do cume que existe no fundo dos oceanos. não te dispas mais por favor. já corri campos de mais até chegar aqui.
escrito por bruno às
00:46 de um destes dias
conheci-te assim:
como as flores que desabrocham
como as estradasque não têm fim.
escrito por bruno às
00:44 de um destes dias
a apareceres em tons vermelhos, perto de mim. hoje. vi carros e barcos estampados nas esquinas onde o teu olhar não caminha. preciso de pousar nos teus olhos a calma. ou a palma das tuas mãos abertas. todas as linhas por onde podemos seguir o nosso caminho. para mais tarde recordar: a nostalgia.
escrito por bruno às
00:38 de um destes dias
amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te amo-te 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escrito por bruno às
20:00 de um destes dias
fizeste planos para ter dias maiores. e agora, quando ainda há tanto por olhar, quase te apetece chorar ao ver o pouco que resta do pôr-do-sol junto ao prédio mais alto da tua rua. há uma espécie de janela, atrás de cujo vidro é sempre noite. e, tu, pouco vês. ela vai estar à tua espera. não sou eu. se me quiseres dar beijos pequeninos eu não nego a ponta dos teus dedos brincando nos meus cabelos. não me magoes. quase me apetece chorar ao ver o pouco do pouco que resta do pôr-do-sol junto ao prédio mais alto da minha rua. o vidro embacia-se. é a minha respiração de encontro ao pouco que resta de ti na memória de um dia chuvoso.
escrito por bruno às
18:04 de um destes dias
podiam a ser a palma das tuas mãos montanhas e vales de túlipas e lírios silvestres. os teus olhos imenso céu onde brilham pequenas estrelas. o teu pescoço estrada do esquecimento que me contorna e me leva para longe daqui. os teus cabelos fragância do mundo que existe nos cristais dos rios de prata a sul de um qualquer lugar longínquo. e o teu corpo, o teu corpo, todo ele, seria um lugar submerso onde me encontro para nunca mais regressar à decadência dos meus dias póstumos.
escrito por bruno às
14:15 de um destes dias
isso era dantes, mãe
quando atiravamos
pedras aos gatos
e partíamos janelas
a jogar à bola.
agora as pedras
caem directamente
nas nossas mãos
e rodamos a quem
está à nossa direita.
somos os estilhaços de nós próprios.
escrito por bruno às
16:27 de um destes dias
escrito por bruno às
16:08 de um destes dias
escrito por bruno às
22:31 de um destes dias
escrito por bruno às
21:47 de um destes dias
ligo a televisão e sei que:o amor triunfaráapesar de todas as adversidadesporque terá de passar:o amor sempre triunfará :sabe-lo a televisão,tal como o sabem o romance, o poema,as canções, as criancinhas de mãos dadas,os jovens no jardim, as velhas viúvas em casaa ver a telenovela da sua juventude e a fazeremcamisolinhas de malha e pantufinhas para o neto que há-denascer do ventre das sua noras, as suas mesmas noras paridasnas horas em que os filhos já ternurentamenteentraram no primeiro sono nos leves movimentosdas suas pequenas bocas,os homens que cruzam as estradas com os médiosligados e o autorádio sintonizado na rádio regionalou uma cassete dos 80's a tocar para relembrar umaoutra viagem numa carrinha muito diferentedeste carro da empresa,com pessoas muito diferentes das que agoranão vão no carro da empresa, o rádio a tocarno carro do patrão para não haver o silênciodo carro do patrão, limpar o pó ao carro do patrãono fim de semana, os rapazes dos bairros problemáticosque tentam arranjar emprego nos grandes centros comerciaisenquanto ainda tentam prosseguir a muito custo os seusestudos e acabam a trabalhar nas obras e a meter jantes novasnos carros que todos os dias gastam pneu no asfalto entremais uma corrida e a fugida à polícia, os próprios polícias,que estão fartos de perseguir a pé ou de carro rapazes quetentam arranjar emprego nos grandes centros comerciasenquanto ainda julgam ser capazes de prosseguiros seus estudos e mais tarde acabam por desistir de tudoe juntam-se ao pai de um rapaz branco do centro da cidadepara trabalhar nas obras e comprar droga. as raparigas dessesbairros onde a droga se vende que engravidamdo dealer ou de um rapaz que não conseguiu arranjar empregonum centro comercial, nem conseguiu continuar os seus estudos,nem trabalhar nas obras, e trabalha para o dealer queespalha droga, balas e sémen pelo seu bairro.ou a própria droga, a própria droga ainda acredita no amor.e, eu, vou vendo televisão.
escrito por bruno às
17:42 de um destes dias
os homens
não choram
bebem as
suas próprias
lágrimas em
copos sem
fundo.
escrito por bruno às
02:28 de um destes dias
deixei um bilhete na tua caixa postal. viaja com ele, por favor. viaja comigo, meu amor.o nosso caminho de volta. ou, em volta.
escrito por bruno às
02:08 de um destes dias
não vou dizer o que sei que queres ouvir
se o fizesse
isso seria dar-te o que já conheces.
um novo passo nos vai guiando
ao sabor das novas curvas das nossas vidas.
escrito por bruno às
02:02 de um destes dias
dói o
mar ao longe.
ondas superficiais tornadas
vento e ferro e maré
revoltam o mar no
seu mais íntimo.
novas ondas surgem das profundezas
de um mar azul turquesa
zangado furibundo odiático
vento e dor e o mar
de uma gaivota nos meus ouvidos.
escrito por bruno às
02:00 de um destes dias
comboios perdem-se a todas as horas
o teu sorriso como um diminutivo
do que és em mim e nos ponteirosdo pensamento que te enleia.
escrito por bruno às
17:49 de um destes dias
há uma nostalgia cortante que nos enche e nos esvazia. o movimento constante no acto frio de uma respiração suada. todas as folhas que hão-de cair. um dia todos os chãos que hão-de tremer. de baixo dos pés do mundo a insegurança de incertas árvores despidas.
escrito por bruno às
17:11 de um destes dias
como um grande golpe aberto em nós onde entramos para perder de vista o nosso próprio corpo. um grande e suado rosto onde não poderemos nunca entrar. uma cabeça rosa de espinhos na ponta dos seus dedos em teclas de apagar. outros amores. outras aventuras. ou uma nostalgia cortante.
escrito por bruno às
21:32 de um destes dias
desculpa não compreender a utilidade de quadrados azuis. é que não compreendo porque serve um quadrado azul para alguma coisa.
existem tantas cores! tinham de ser logo quadrados azuis os que desenhas alheada de tudo! ignoras tudo o que quadrados azuis significam!... não sabes nada acerca de quadrados azuis! não sei por que desenhas quadrados azuis! não apagues! não consigo compreender porque desenhas quadrados azuis! eu não quero que os apagues! não, não os apagues! já estão feitos, já estão feitos! agora, não julgues que eu não compreendo a utilidade de quadrados azuis! eu não sei é por que julgas tu que um quadrado azul se desenha assim! apetece-te dá-te na cabeça assim do nada: e desenhas quadrados azuis! martelo tantas vezes no meu teclado… e tu, a desenhares quadrados azuis! juro que não percebo! desculpa mas não percebo! não consigo compreender! mesmo! não compreendo! desculpa mas não compreendo a utilidade de quadrados azuis! - ou a inutilidade deste texto.
escrito por bruno às
15:53 de um destes dias
eras quase bonita quando do mundo te erguias. do mais fundo de nós, fazias despontar pequenas flores e outras plantas- e eu esquecia-me. eras quase bonita quando passo os dedos pela tua pele na minha memória. não tinhas a fúria dos vulcões, nem sequer cuspias fogo como os pássaros que cruzam hoje os céus. aquecias-me. tinhas as mãos do tamanho do mundo e trazias uma leve música na ponta dos teus dedos. dos teus olhos, sabia o céu. do céu, caíam estrelas: as mesmas estrelas que vi erguerem-se numa noite de lua cheia. essas mesmas estrelas faziam de todas as noites noites de lua e de luar. dantes, trazias os bolsos cheios. agora os teus bolsos revolveram e vens tu dentro deles. não te encontro em nenhum dos lugares onde antes existias.
talvez um dia ainda possas voltar. na minha memória talvez um dia ainda possas voltar. talvez um dia ainda possas voltar na minha memória. volta, por favor.
escrito por bruno às
15:19 de um destes dias
a raiva que corre dentro de nós é a mesma que nos puxa para fora do nosso controlo, para fora de nós e de tudo. é a raiva quem nos tira as horas de sono e nos traz as gotas de suor que escorrem pela face baixa. tenho os punhos cerrados para um dia quando voltares não ter mãos.
escrito por bruno às
15:29 de um destes dias
de há um tempo para cá venho tendo todas as noites o mesmo pesadelo. quando adormeço, existe um leve tom de melancolia e alguém me pede para viver sem ti. depois acordo e só quero que sejas feliz.
escrito por bruno às
00:05 de um destes dias
os homens não choram. bebem as suas próprias lágrimas em copos sem fundo.
escrito por bruno às
21:44 de um destes dias
é um bocado difícil explicar isto. talvez devesse dar o exemplo. mais do que um talvez. talvez deva não ter certezas. talvez. é assim o amor: um bocado de fibra. ou um bocado de fibra quebrado. um esticador do cabelo. um bocado de uma flor. um quadro de palavras bonitas. o amor é uma estrutura complexa. é complexo o amor. é um bocado de sofrimento. um bocado de cabelo. um bocado de sabão azul e branco são dois amantes gastos pelo tempo. apenas para referir as coisas mais simples. um tendão preso. o amor é um bocado tenso. eu sou um bocado tanso no amor, leia-se o texto. o amor é um bocado fodido. este texto é um bocado estúpido. o amor é um bocado fodido. o amor é um pecado difícil.
escrito por bruno às
23:40 de um destes dias
por exemplo a minha espinhal dorsal partida na extensão de todas as suas vértebras e discos intervertebrais. encontraste uma maneira não só de penetrar a minha cifose toráxica como também e principalmente descobriste um modo de quebrar em mim as vértebras de todos os animais esqueléticos do mundo. um formigueiro na minha lordose cervical. entraste no caminho das minhas vértebras para as fazer tremer, uma a uma, e depois: depois o meu crânio deixou de realizar qualquer movimento possível (agora impossível).
agora por exemplo podia estalar os dedos.
mas partiste todos os ossos do meu corpo e sou hoje uma só matéria gelatinosa coberta de pele. no chão também, os meus olhos tristes.
escrito por bruno às
15:43 de um destes dias
Sempre li, de cima a baixo, cada uma das folhas dos divórcios a existir que me passavam pelas mãos. Procurações, requeridos, despachos. Algumas palavras ficam melhor, eu sei e escrevo-as dentro do possível transbordo às normas modelares dos documentos em questão. Procurações, despachos. Post-It: Consultar o Artigo 33.º (Separação judicial de pessoas e bens).
Falar com as pessoas, fazer um inventário dos bens. 2. Não pode, no entanto, ser decretada a separação judicial de pessoas e bens ou o divórcio de cônjuges casados até 31 de Maio de 1967 com fundamento em facto que não seja relevante segundo a lei vigente à data da sua verificação.
Ver se algum destes artigos se aplica aos meus clientes, sentados em frente a mim enquanto passo os olhos pelos papéis, pelos decretos-lei, pelas horas e contraio os lábios em bico num gesto prolongado.
1. Até 31 de Outubro de 1967 pode o marido da mãe intentar acção de impugnação da paternidade, com fundamento em qualquer dos factos referidos nas alíneas c) e d) do artigo 1817º do novo Código Civil, relativamente ao filho nascido antes da entrada em vigor deste diploma, com prejuízo do disposto no artigo 1818º.
Andar páginas para a frente, páginas para trás no massador Código-Civil que trago comigo deste os tempos do curso de Direito. Decreto-Lei n. 272/2001, de 13 Outubro. Páginas para a frente, páginas para trás.
Via litigiosa. Mútuo consentimento. Conservatórias do Registo Civil. Na eventualidade de se tratar de um divórcio enveredante pela via litigiosa: tribunais. Mais um divórcio. Está despachado.
Meus amigos, basta que ambos assinem aqui. Não basta absolutamente nada! Hoje mudei a minha assinatura de sítio. Não sou advogado, como fui toda a vida. Assinei os papéis do divórcio. Rodei meu corpo no escritório, no triângulo inerte troquei de cadeira e assinei os papéis do meu próprio divórcio. À minha frente, um advogado de expressão nula, os lábios roxos e em bico, um fio de fala que não ouço: um fio que me dá as instruções que sem pensar sigo.
1. Até 31 de Outubro de 1967 pode o marido da mãe intentar acção de impugnação da paternidade, com fundamento em qualquer dos... O filho da minha esposa é meu filho também! Acima de tudo. O meu filho! A minha esposa já não é minha esposa. Mas o meu filho! É meu filho! Devia ter passado mais tempo com ele: Jogar à bola, Consola, Pai?, Primeiros passos, Primeiro dia de aulas. (O meu gabinete no escritório e eu a assinar papéis de divórcio. Agora, outro escritório, outros papéis e eu a assiná-los.)
Ao meu lado, o penteado: a minha mulher: já não a minha mulher. Não consigo olhar directamente para ela. O mundo é tão vasto e eu estou tão sozinho. Caí em mim de chapa.
( Hoje sou um homem sozinho, apenas com a sua gravata. Perdi as contas a quantos anos tinha em 1967- não faço a mínima ideia do que fazia no ano de 1967. Talvez esteja numa qualquer gaveta do meu arquivo um qualquer processo de divórcio relativo ao ano de 1967. Não me apetece ir ver. - Isso não interessa para nada, nada de novo para mim. Tenho muito trabalho ainda que tem de ser acabado hoje. Começa a escurecer lá fora. Vou ficar no meu escritório, na minha secretária, na minha caneta noite dentro. Não tenho casa para onde ir. Apenas tenho uma gravata sobre uma camisa amarrotada. )
escrito por bruno às
00:55 de um destes dias
fico feliz por te ver aqui.
estivemos tão perto
e tão perto do longe.
fico feliz por te ter aqui.
fomos um pouco mais longe
e não fomos mais longe do que um pouco.
e eu fico feliz por te saber aqui.
escrito por bruno às
00:44 de um destes dias
escrito por bruno às
19:16 de um destes dias
existia num tom sépia quase morto. só o vi uma vez, mas chegou para o conhecer. se o voltasse a ver numa qualquer dessas ruas perdidas por aí entre esquinas e quiosques fechados, reconhecê-lo-ia de imediato. a sua barba grande, e não por fazer, que isso implicaria que ela algum dia iria voltar a estar aparada; os seus olhos castanhos, a confundirem-se com os tecidos e com o cenário de naturezas mortas; os seus cabelos brancos, também eles nos saltam à vista e quase tapam a sua.
escrito por bruno às
15:32 de um destes dias
não têm de ser palavras
de amor as vistas no arder
mais ou menos lento das chamas.
não têm de ser palavras
de terror as vistas no arder
mais ou menos vermelho das labaredas.
só temos de ver
as palavras dentro de nós mesmos,
pois é lá que elas nascem
e mesmo soltas nos nossos lábios
é lá também que elas morrem.
escrito por bruno às
15:26 de um destes dias
fazes sempre essa cara quando percebes quem sou,e eu deixo de perceber quem és quando o teu rostose desfaz em mil gotículas de água imprópria para consumo.
escrito por bruno às
15:23 de um destes dias
há uma tribo na amazónia que, no fim do dia, se senta em volta da fogueira e inventa novas palavras.
escrito por bruno às
15:20 de um destes dias
está sempre uma carrinha funerária à minha porta.se ela está à espera que eu fiqueàs portas da morte,está bem enganada.eu só uso aquela porta parasair para a minha vida.
escrito por bruno às
17:04 de um destes dias
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16:10 de um destes dias
levo mais coisas na minha bagagemdo que na minha bagagem coisas cabem.
escrito por bruno às
16:02 de um destes dias
o momento em que nos beijámos
é ainda hoje o papel de parede de minha casa.
escrito por bruno às
15:44 de um destes dias
nasci no poema, pequenino.
no poema, pequenino, eu a nascer.
existe um trovão de sol que atravessa os dias.
há uma flor que dorme de noite.
todos os poemas são essencialmente amargurados.
escrito por bruno às
15:38 de um destes dias
quando ficamos velhos, e começamos a esquecer coisas, esquecemos em primeiro lugar a última língua que aprendemos. a nossa língua materna é o último pedaço que perdemos de nós.
escrito por bruno às
13:47 de um destes dias
as minhas memórias são de pequenino. por isso pequeninas em grande.
escrito por bruno às
01:31 de um destes dias
existem as pessoas no café. e existes tu. longe daqui.
escrito por bruno às
21:39 de um destes dias
eu é que sou demasiado estúpido
e sinto-me bem ao teu lado
e ao lado da chuva.
escrito por bruno às
01:15 de um destes dias
traz música aos meus dias. a esta fotocópia de um texto belo e surdo. és a paginação que falta no título do meu texto. e já que falamos de livros, amo-te.
escrito por bruno às
00:22 de um destes dias
o telefone nunca mais tocou. existia a sépia. o telefone. e eu. esperava com o nariz bem junto ao seu bocal. ao bocal do telefone. o telefone nunca mais tocou. aos poucos, a minha posição foi-se afastando e foi-me afastando do telefone e do que eu dele esperava. de quem eu nele esperava. existia sépia. o telefone nunca mais tocou. o telefone, nunca mais, tocou.
escrito por bruno às
00:21 de um destes dias

ouviste todas as nossas conversas. e, hoje, velhos, estou gasta e tu cansado das palavras sobre o tempo e sobre as estudantes que moram no andar por baixo de mim e que todos os dias saem na noite, e que nalgumas noites têm amigos a dormir nos seus quartos. nunca me ouviste dizer que todas as noites são o silêncio, mas tu sabe-lo muito bem- estás sempre aqui, a meu lado, com o teu bocal pousado a fingir que dorme.
(fotografia da autoria de luís belo)
escrito por bruno às
18:33 de um destes dias
quero dormir contigo. és bonita quando dormes e eu quero dormir contigo.deixa-me segurar a ponta dos teus dedos nesta noite.
escrito por bruno às
14:20 de um destes dias
escrito por bruno às
23:45 de um destes dias
escrito por bruno às
00:24 de um destes dias
não deste todos os passos da nossa dança. fiquei com os pés presos ao chão da pista e com lágrimas nos olhos. as lágrimas dos meus olhos são lágrimas do teu rosto na minha memória. não existem chás que curem o que se passou na pista do salão. as últimas notas da valsa que não ouvi tocam ainda.
escrito por bruno às
16:54 de um destes dias
há muito tempo demos tudo o que tínhamos para não ter mais nada. estávamos no tempo das horas mortas. no tempo em que o tempo se demorava nos nossos corpos. serenos e pacientes. vivo ainda no tempo das horas mortas. preso para sempre nesse instante. na memória, o meu corpo preso ao teu. mas, hoje, o meu corpo solto e vazio a caminhar em diante com a cabeça voltada para o passado. o meu corpo solto na realidade e vazio dela. o meu corpo vazio da realidade. o meu corpo vazio de ti. vivo ainda no tempo das horas mortas, o tempo morreu em mim e eu morri no tempo.
na memória do meu corpo existe a memória do meu corpo e o meu corpo. na memória existe a memória de ti. na memória existe a tua memória. na tua memória não existe a minha memória nem a memória de mim.
saíste para sempre da minha vida. e eu fiquei preso para sempre ao momento em que saíste para sempre da minha vida. a minha memória a dizer que saíste para sempre da minha vida e o meu coração a dizer que para sempre te ama. sei que o tempo é eterno como o é o meu amor. sei que a dor suplanta os cactos dos dias. amo-te.
amo-te ainda. os dias não correm, vão andando. os dias são as pessoas a dizerem-se infelizes e a memória de eu nos conhecer felizes e juntos. os dias são grupos de pessoas vestidas de preto sem morrer ninguém a dizerem-se infelizes com os cabelos muito negros e as expressões muito nulas. os dias são a minha infelicidade.
amo-te ainda mais e mais. a minha infelicidade são os meus dias presos aos dias de felicidade a teu lado. os meus dias são a perca. os meus dias são o nada. os meus dias em vão. os meus dias são os nossos dias perdidos. os meus dias são ainda os teus dias. amo-te. tenho a certeza de que te amo ainda tenho certezas terríveis. amo-te mais ninguém. quero o tempo de volta. não quero o tempo perdido. não quero perder o tempo a não ser a teu lado. amo-te.
escrito por bruno às
16:22 de um destes dias
que perfume é esse
que trazes hoje contigo
o cheiro dos teus cabelos
no desfile dos teus passos
que perfume é esse
que trazes hoje contigo
para os meus dias
de fados lentos
e tristes lides.
escrito por bruno às
16:00 de um destes dias
não percebo o que não dizes
foi o que escolhi para saber no fim
de um horizonte claro ao mais escuro
procuro a verdade na mentira de dias de sossego
escrito por bruno às
16:07 de um destes dias
encontro ainda por vezes uma ou outra foto tua esquecida no meu computador de secretária. como ele, preso à corrente eléctrica e à secretária que o sustenta, ficaste para sempre presa na memória de dias passados. hoje, quando por acaso encontro uma pose tua de felicidade espontânea no meu computador, já não encontro nos meus lábios os olhos que um dia te tiraram tantas fotografias.
escrito por bruno às
17:03 de um destes dias
escrito por bruno às
19:52 de um destes dias
chegaste para ser o meu dia. o meu dia inteiro e solar. uma leve brisa ao erguer, uma leve brisa ao deitar. o sol a pôr-se por detrás de uma qualquer nota musical leve. e eu, com os olhos brilhantes num adeus, a saber que esse mesmo sol voltará numa manhã esboçada em tons de névoa. o meu sorriso, leve.
o sol e a lua. os encontros anunciados. volto ao dia, ao trabalho que escolhi para mim. os papéis. o fim do dia já se deu, saio agora deste prédio cinzento e mergulho na meia escuridão de uma noite citadina ficticiamente iluminada por nós. sabemos que a noite é escura, sabemos que através da escuridão perdemos grande parte das nossas capacidades de visão. inventámos a luz porque queremos ser superiores ao que é natural. inventámos a luz porque queremos ter uma esperança.
os sucessivos postes candeeiros de luz amarelada que comigo se cruzam no meu caminho para casa, existem para julgar que sei para onde vou, existem para julgar que sei o meu caminho, existem para julgar que vou para algum lado.
caminho com os olhos sobre meia dúzia de estrelas no céu azul.
tenho nos meus olhos a certeza de que quanto mais caminhar nesta rua deserta mais escuro será o céu. azul. escuro. azul cada vez mais escuro. até: ao ponto de retorno. quando chegar à encruzilhada desta rua atravessada por mais uma ou duas outras ruas, o céu recuará no tempo. e mais rápido dar-me-á um céu cada vez mais azul. claro. céu de um azul cada vez mais claro. até ao ponto de inibição, quando o céu se torna branco, e enublado o sol amarelado nasce para nós.
escrito por bruno às
18:26 de um destes dias
nasce aqui hoje um espaço, como uma caixinha de chocolates onde cada dia tem um sabor diferente.
é meu, e espero que vosso também.