escrito por bruno às 21:47 de um destes dias

ligo a televisão e sei que:
o amor triunfará

apesar de todas as adversidades
porque terá de passar:
o amor sempre triunfará :

sabe-lo a televisão,
tal como o sabem o romance, o poema,
as canções, as criancinhas de mãos dadas,
os jovens no jardim, as velhas viúvas em casa
a ver a telenovela da sua juventude e a fazerem
camisolinhas de malha e pantufinhas para o neto que há-de
nascer do ventre das sua noras, as suas mesmas noras paridas
nas horas em que os filhos já ternurentamente
entraram no primeiro sono nos leves movimentos
das suas pequenas bocas,
os homens que cruzam as estradas com os médios
ligados e o autorádio sintonizado na rádio regional
ou uma cassete dos 80's a tocar para relembrar uma
outra viagem numa carrinha muito diferente
deste carro da empresa,
com pessoas muito diferentes das que agora
não vão no carro da empresa, o rádio a tocar
no carro do patrão para não haver o silêncio
do carro do patrão, limpar o pó ao carro do patrão
no fim de semana, os rapazes dos bairros problemáticos
que tentam arranjar emprego nos grandes centros comerciais
enquanto ainda tentam prosseguir a muito custo os seus
estudos e acabam a trabalhar nas obras e a meter jantes novas
nos carros que todos os dias gastam pneu no asfalto entre
mais uma corrida e a fugida à polícia, os próprios polícias,
que estão fartos de perseguir a pé ou de carro rapazes que
tentam arranjar emprego nos grandes centros comercias
enquanto ainda julgam ser capazes de prosseguir
os seus estudos e mais tarde acabam por desistir de tudo
e juntam-se ao pai de um rapaz branco do centro da cidade
para trabalhar nas obras e comprar droga. as raparigas desses
bairros onde a droga se vende que engravidam
do dealer ou de um rapaz que não conseguiu arranjar emprego
num centro comercial, nem conseguiu continuar os seus estudos,
nem trabalhar nas obras, e trabalha para o dealer que
espalha droga, balas e sémen pelo seu bairro.
ou a própria droga, a própria droga ainda acredita no amor.

e, eu, vou vendo televisão.
 
2 comentários:


no dia 21 janeiro, 2007 21:06, Anonymous Anónimo

formando uma teia que nunca mais acaba, que continua sempre e sempre... que fica densa e que não deixa que um dia todo o mal acabe...

 

no dia 22 janeiro, 2007 01:18, Blogger Sara Morgado

Todos os que são o amor não são o amor, como se o amor fosse a utopia. Como se o amor fosse a força a não existir.