escrito por bruno às 21:32 de um destes dias

desculpa não compreender a utilidade de quadrados azuis. é que não compreendo porque serve um quadrado azul para alguma coisa.
existem tantas cores! tinham de ser logo quadrados azuis os que desenhas alheada de tudo! ignoras tudo o que quadrados azuis significam!... não sabes nada acerca de quadrados azuis! não sei por que desenhas quadrados azuis! não apagues! não consigo compreender porque desenhas quadrados azuis! eu não quero que os apagues! não, não os apagues! já estão feitos, já estão feitos! agora, não julgues que eu não compreendo a utilidade de quadrados azuis! eu não sei é por que julgas tu que um quadrado azul se desenha assim! apetece-te dá-te na cabeça assim do nada: e desenhas quadrados azuis! martelo tantas vezes no meu teclado… e tu, a desenhares quadrados azuis! juro que não percebo! desculpa mas não percebo! não consigo compreender! mesmo! não compreendo! desculpa mas não compreendo a utilidade de quadrados azuis! - ou a inutilidade deste texto.

 
escrito por bruno às 15:53 de um destes dias

eras quase bonita quando do mundo te erguias. do mais fundo de nós, fazias despontar pequenas flores e outras plantas- e eu esquecia-me. eras quase bonita quando passo os dedos pela tua pele na minha memória. não tinhas a fúria dos vulcões, nem sequer cuspias fogo como os pássaros que cruzam hoje os céus. aquecias-me. tinhas as mãos do tamanho do mundo e trazias uma leve música na ponta dos teus dedos. dos teus olhos, sabia o céu. do céu, caíam estrelas: as mesmas estrelas que vi erguerem-se numa noite de lua cheia. essas mesmas estrelas faziam de todas as noites noites de lua e de luar. dantes, trazias os bolsos cheios. agora os teus bolsos revolveram e vens tu dentro deles. não te encontro em nenhum dos lugares onde antes existias.



talvez um dia ainda possas voltar. na minha memória talvez um dia ainda possas voltar. talvez um dia ainda possas voltar na minha memória. volta, por favor.
 
escrito por bruno às 15:19 de um destes dias

a raiva que corre dentro de nós é a mesma que nos puxa para fora do nosso controlo, para fora de nós e de tudo. é a raiva quem nos tira as horas de sono e nos traz as gotas de suor que escorrem pela face baixa. tenho os punhos cerrados para um dia quando voltares não ter mãos.
 
escrito por bruno às 15:29 de um destes dias

de há um tempo para cá venho tendo todas as noites o mesmo pesadelo. quando adormeço, existe um leve tom de melancolia e alguém me pede para viver sem ti. depois acordo e só quero que sejas feliz.
 
escrito por bruno às 00:05 de um destes dias

os homens não choram. bebem as suas próprias lágrimas em copos sem fundo.
 
escrito por bruno às 21:44 de um destes dias

é um bocado difícil explicar isto. talvez devesse dar o exemplo. mais do que um talvez. talvez deva não ter certezas. talvez. é assim o amor: um bocado de fibra. ou um bocado de fibra quebrado. um esticador do cabelo. um bocado de uma flor. um quadro de palavras bonitas. o amor é uma estrutura complexa. é complexo o amor. é um bocado de sofrimento. um bocado de cabelo. um bocado de sabão azul e branco são dois amantes gastos pelo tempo. apenas para referir as coisas mais simples. um tendão preso. o amor é um bocado tenso. eu sou um bocado tanso no amor, leia-se o texto. o amor é um bocado fodido. este texto é um bocado estúpido. o amor é um bocado fodido. o amor é um pecado difícil.
 
escrito por bruno às 23:40 de um destes dias

por exemplo a minha espinhal dorsal partida na extensão de todas as suas vértebras e discos intervertebrais. encontraste uma maneira não só de penetrar a minha cifose toráxica como também e principalmente descobriste um modo de quebrar em mim as vértebras de todos os animais esqueléticos do mundo. um formigueiro na minha lordose cervical. entraste no caminho das minhas vértebras para as fazer tremer, uma a uma, e depois: depois o meu crânio deixou de realizar qualquer movimento possível (agora impossível).

agora por exemplo podia estalar os dedos.

mas partiste todos os ossos do meu corpo e sou hoje uma só matéria gelatinosa coberta de pele. no chão também, os meus olhos tristes.
 
escrito por bruno às 15:43 de um destes dias

Sempre li, de cima a baixo, cada uma das folhas dos divórcios a existir que me passavam pelas mãos. Procurações, requeridos, despachos. Algumas palavras ficam melhor, eu sei e escrevo-as dentro do possível transbordo às normas modelares dos documentos em questão. Procurações, despachos. Post-It: Consultar o Artigo 33.º (Separação judicial de pessoas e bens).

Falar com as pessoas, fazer um inventário dos bens. 2. Não pode, no entanto, ser decretada a separação judicial de pessoas e bens ou o divórcio de cônjuges casados até 31 de Maio de 1967 com fundamento em facto que não seja relevante segundo a lei vigente à data da sua verificação.

Ver se algum destes artigos se aplica aos meus clientes, sentados em frente a mim enquanto passo os olhos pelos papéis, pelos decretos-lei, pelas horas e contraio os lábios em bico num gesto prolongado.

1. Até 31 de Outubro de 1967 pode o marido da mãe intentar acção de impugnação da paternidade, com fundamento em qualquer dos factos referidos nas alíneas c) e d) do artigo 1817º do novo Código Civil, relativamente ao filho nascido antes da entrada em vigor deste diploma, com prejuízo do disposto no artigo 1818º.

Andar páginas para a frente, páginas para trás no massador Código-Civil que trago comigo deste os tempos do curso de Direito. Decreto-Lei n. 272/2001, de 13 Outubro. Páginas para a frente, páginas para trás.
Via litigiosa. Mútuo consentimento. Conservatórias do Registo Civil. Na eventualidade de se tratar de um divórcio enveredante pela via litigiosa: tribunais. Mais um divórcio. Está despachado.

Meus amigos, basta que ambos assinem aqui. Não basta absolutamente nada! Hoje mudei a minha assinatura de sítio. Não sou advogado, como fui toda a vida. Assinei os papéis do divórcio. Rodei meu corpo no escritório, no triângulo inerte troquei de cadeira e assinei os papéis do meu próprio divórcio. À minha frente, um advogado de expressão nula, os lábios roxos e em bico, um fio de fala que não ouço: um fio que me dá as instruções que sem pensar sigo.

1. Até 31 de Outubro de 1967 pode o marido da mãe intentar acção de impugnação da paternidade, com fundamento em qualquer dos... O filho da minha esposa é meu filho também! Acima de tudo. O meu filho! A minha esposa já não é minha esposa. Mas o meu filho! É meu filho! Devia ter passado mais tempo com ele: Jogar à bola, Consola, Pai?, Primeiros passos, Primeiro dia de aulas. (O meu gabinete no escritório e eu a assinar papéis de divórcio. Agora, outro escritório, outros papéis e eu a assiná-los.)

Ao meu lado, o penteado: a minha mulher: já não a minha mulher. Não consigo olhar directamente para ela. O mundo é tão vasto e eu estou tão sozinho. Caí em mim de chapa.


( Hoje sou um homem sozinho, apenas com a sua gravata. Perdi as contas a quantos anos tinha em 1967- não faço a mínima ideia do que fazia no ano de 1967. Talvez esteja numa qualquer gaveta do meu arquivo um qualquer processo de divórcio relativo ao ano de 1967. Não me apetece ir ver. - Isso não interessa para nada, nada de novo para mim. Tenho muito trabalho ainda que tem de ser acabado hoje. Começa a escurecer lá fora. Vou ficar no meu escritório, na minha secretária, na minha caneta noite dentro. Não tenho casa para onde ir. Apenas tenho uma gravata sobre uma camisa amarrotada. )
 
escrito por bruno às 00:55 de um destes dias

fico feliz por te ver aqui.

estivemos tão perto
e tão perto do longe.

fico feliz por te ter aqui.

fomos um pouco mais longe
e não fomos mais longe do que um pouco.

e eu fico feliz por te saber aqui.






 
escrito por bruno às 00:44 de um destes dias


(desenho de vientre)
 
escrito por bruno às 19:16 de um destes dias

existia num tom sépia quase morto. só o vi uma vez, mas chegou para o conhecer. se o voltasse a ver numa qualquer dessas ruas perdidas por aí entre esquinas e quiosques fechados, reconhecê-lo-ia de imediato. a sua barba grande, e não por fazer, que isso implicaria que ela algum dia iria voltar a estar aparada; os seus olhos castanhos, a confundirem-se com os tecidos e com o cenário de naturezas mortas; os seus cabelos brancos, também eles nos saltam à vista e quase tapam a sua.