escrito por bruno às 16:22 de um destes dias

chegamos meio a medo. primeiro, não sabemos muito bem como, nem porquê, nem onde, nem o quê. os nossos passos são certos numa incerteza miudinha. não temos muita noção do que poderá ou não vir a acontecer. não temos noção de muitas coisas. nem sequer nos lembramos muito. nem do que sabemos, nem do que sabemos que não sabemos. limitamo-nos a estar desvanecidamente sossegados, tremulamente dentro de uma inquietação que quase não é a nossa.
 
escrito por bruno às 15:34 de um destes dias

dedicado a duas pessoas que hoje não se conhecem

cada fotografia nossa que por vezes encontro sem culpa nem intenção é hoje uma maldição. enormes sorrisos são o espelho de um passado impossível à memória. dentro das recordações dos momentos existem obtusas imagens a desmistificar cada um desses momentos. a desbotar. cada fotografia é hoje lembrança opaca de sorrisos que contrastam com lágrimas, que não tendo sido derramadas permanecem em nós para sempre.
 
escrito por bruno às 15:13 de um destes dias

à noite. a noite. a noite. à noite a noite. a noite à noite a noite. à noite a noite. a noite na noite. na noite à noite. a noite. há noite na noite à noite. à noite. encontramo-nos mais logo, para tomarmos um copo e metermos toda a conversa em dia e a saudade de parte.
 
escrito por bruno às 23:20 de um destes dias

nunca te magoarei, nunca. chamo-me bruno, e tu? não chores por favor, não consigo ver-te chorar. um sorriso simples, sem palavras. tens todas as palavras que as palavras não têm. lia nos teus olhos tudo aquilo que conseguia ler. mostra a tua face. nos teus olhos vejo mais do que aquilo que deixas ver. os teus gestos. o teu rosto. a tua face é o tempo do mundo. limparei todas as lágrimas que um dia poderão escorrer no teu rosto, e impedi-las-ei de avançar na tua pele. era já o cheiro dos teus cabelos, nas minhas mãos. nos meus olhos já o cheiro da tua pele, e o amor a nascer pequenino para vencer certezas grandes de mais para os dias que nos cabiam.
 
escrito por bruno às 16:06 de um destes dias

um amor escondido,
que nem todos
conseguirão ver.

(às vezes é claro
outras vazio.)
 
escrito por bruno às 21:15 de um destes dias




era uma vez um homem que viajou até à índia só para escrever uma estória. não sabia o que escrever e tinha de ver para sentir. viu mulheres com mantos pelas costas. e homens de pele castanha. e vacas brancas. viu ruas a pique. palácios de cores. reflexos a preto e branco em lagos de calmas águas. viu homens totalmente vestidos de branco. e mulheres totalmente nuas na penumbra. viu sandálias por calçar, em pés feridos. bicicletas com várias rodas. e tendas com poucos paus. letras vermelhas em paredes brancas. formas escultóricas em paredes de monumentais empreendimentos de pedra banhadas a ouro. barbas grandes e por fazer. portas pequenas. selos. marcos do correio e budas em miniatura. inúmeras vestes. cores alegres em rostos tristes. turbantes. feições perturbantes. tendas desfeitas. pedras. pedras e cal. tapetes que voam: no vento. e o homem não conseguiu escrever nada sobre o que viu. a memória nunca sobreposta por palavras. no interior dos seus olhos existem fotografias suspensas. a memória continua a ser a memória, o que existiu. há tantas estórias a cair da mão suspensa que segura a cabeça do homem que viajou até à índia para não escrever nenhuma estória.





(fotografia da autoria de luís tobias, microconto baseado na obra fotográfica índia)

 
escrito por bruno às 22:13 de um destes dias

vivo na sombra dos dias
que habita a parede branca
do meu quarto

e faz ouvir ao perto
a tão longínqua e
pesada melodia comprimida no único lugar

onde ainda habito.
 
escrito por bruno às 21:23 de um destes dias

nasci no mundo
quando o poema morreu
para mim.
- a música de um piano
é triste.

esta mesa tão grande
- tão grande e tão vazia e tão vasta.
esta cadeira morta,
onde pouso meu peito.
esta mesa onde escrevo,
onde pouso meu papel.

esta música de choro
estas cartas perdidas.
esta tinta- toda esta tinta-
do nunca arrependimento
estas pautas musicais,
uma réstea de música.

uma rua na baixa.
ou um papel em minha casa.
 
escrito por bruno às 23:49 de um destes dias

fazemos puzzles para um dia. quando for muito tarde para alguma coisa. agora é ainda muito cedo. (todas as palavras encaixadas esquecidas. todos os textos para lembrar os dias em que era cedo de mais para lembrar e tarde para esquecer.)
 
escrito por bruno às 23:48 de um destes dias

seguias a passos largos o teu caminho. o teu caminho era não sei para onde. seguias a passos atarefados de pressa o teu caminho de destinos longínquos. quando chegaste ao fim paraste e, não dando muito tempo a ti próprio para pensar, voltaste para trás, no sentido inverso ao que primeiro havias tomado.
 
escrito por bruno às 23:45 de um destes dias

todos os dias escrevi o meu último poema. de cada vez que princípio um novo poema, de cada vez que acabo um poema já gasto, escrevo o último poema da minha vida.
 
escrito por bruno às 23:28 de um destes dias

troca-me na hora
em que antes
de por ti
os goles suarem
serás orvalho
na manhã

escura.
 
escrito por bruno às 23:05 de um destes dias

Quando eu escrevo Beijinhos, no final de cada mensagem, apenas quero que me beijes. Mostro que te quero e esqueço que não me podes beijar. Eu só quero os teus lábios.

Reinvento cada palavra amor e sacrifico as frases cosidas na manta de retalhos do tempo amoroso perdido.